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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ode à nostalgia


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Saudade é um grito por ti que me foge dos olhos
E chora, tão desprotegido, como se fosse criança.
Saudade é carinho que o amor fere qual espinho,
A alma brincando de fazer próxima a distância.

Saudade é desejar teu beijo e ter só recordações,
É querer teu abraço e, patético, ser um sonhador.
Saudade é o vazio, ah!, que me provocam as canções,
Me fazendo bisonho diante dos arcanos do amor.

Saudade é sonho que insiste ante realidade,
Na espera constante, certeza, pela felicidade.
Saudade é estar além de onde o corpo alcança,

Onde espírito e sentimento transpiram poemas,
Onde não existe beleza que a ti seja gêmea,
Onde meu coração te encontra em forma de esperança.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 05 de fevereiro de 1996
Abraço!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Soneto da descoberta


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Nos encontramos no êxtase de um sonho.
Como quem não intenciona o desejo,
Qual Ícaro em seu devaneio bisonho,
Unimos nossos lábios, infantes, num beijo.

Nossos corpos, duas flamas encantadas,
Nus, colados num lúbrico amplexo,
Absorvendo carícias (profanas ou sagradas?),
Espalhando no quarto o olor do teu sexo.

Num átimo, no mágico instante do prazer,
Nosso Vesúvio espalha magma incandescente,
Ilumina o céu, faz a terra tremer,

E, em teu fêmeo gozo, me sinto inocente,
Me sinto homem, teu cúmplice, porque
Te amar é me descobrir novamente.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 06 de julho de 2000
Abraço!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O anônimo


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


        Eram quatro horas da madrugada, e João Messias do Nascimento, como em todos os dias nos últimos trinta e cinco anos, se levantou, fez o café e acordou os quatro filhos solteiros, três homens e uma mulher, para que às cinco, em ponto, estivessem a caminho da horta que garantia o sustento da família.
        Exibia com orgulho as mãos calejadas pela labuta constante, "mão de homem", segundo ele. Este era um troféu cultivado com anos e anos de trabalho, símbolo de sua honestidade e excelente caráter.
        Enquanto fumava seu cigarro de palha, sorria, vitorioso, ao ver o verde tapete de seus canteiros de alface, o vermelho contrastante dos tomates maduros. Seu suor não tinha sido em vão.
        Trazia consigo a esperança de fazer um "pé-de-meia" para os filhos, comprar um pedacinho de terra para cada um deles criar sua própria família. Mas o lucro que tinha mal dava para pagar as dívidas, e ficava sempre a esperança de que no ano seguinte seria melhor.
        E, como é certo na vida que todo homem tem seu fim, João sabe seu destino: será lembrado apenas pela família e uns poucos amigos. O homem do campo, que fornece alimento para uma nação, é apenas mais um "zé", um anônimo sem nenhuma importância. O herói de dignidade invejável, não é saudado por isso, ninguém se lembra de quem vive da terra e para a terra e morre nessa ingrata luta.
        Neste momento, o homem de ferro, talhado a fogo, o herói de verdade, enxuga uma incômoda lágrima que lhe molha a face.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 12 de abril de 2001
Abraço!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Crítica a um pobre de espírito


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Sou pobre quando monopolizo
A razão,
Quando não aceito
Nem assumo minhas imperfeições.

Sou pobre quando exijo
Que os outros sejam iguais a mim
Ou se moldem aos meus sonhos,
Privando-os de livre arbítrio.

Sou pobre quando o meu sorriso
Intenciona a compra de favores
Ou quando espero que me retribuam
Em dobro.

Sou pobre quando minha lágrima
É a máscara de uma 
Gargalhada infiel.

Sou pobre se o meu amor
Significa cobrança
Ao invés de entrega.

Sou pobre se os meus sonhos
Não incluem a felicidade de outrem.
Sou pobre quando tenho pena de mim
E sou impiedoso com outros.

Sou pobre quando não amo.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 07 de janeiro de 1998
Abraço!

sábado, 26 de janeiro de 2013

Religiosidade


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


És, de todas as verdades, a mais sincera;
Vendaval no cio em plena tempestade,
Volúpia febril incendiando minha quimera,
Beldade, prólogo de eternidade.

Mil juras te fizera, mais te amaria!
Se em teu fogo me surpreendo profano,
Em teu suor santifico toda a poesia
Que exalas com o mais divino encanto.

Primevo, cultuo tua índole feminina,
Teu brilho, teu riso doce de menina.
És, de fato, a magia de um outono

Fazendo promessas de fruto maduro,
De semente fértil para o futuro,
Parto de poemas em teus olhos de sonho.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 10 de abril de 2000
Abraço!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Na própria pele


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves

        Quem passasse pela rua ao entardecer, não poderia imaginar o homem viril que já fora "seu" Altamiro, agora velho, frágil, numa cadeira de rodas e só, muito só.
        Não poderia, também, ouvir seus pensamentos, recordações da 
juventude: "- velho? Ah!, velho só serve para atrapalhar."
        Não tivera tempo para abraçar, para conversar, oferecer carinho, a um idoso. Não. Os arroubos da mocidade, o desespero por um "rabo-de-saia", os esportes, as diversões, os jogos de azar, as bebidas, os bares, a vida boêmia, tudo isso era importante demais para ser trocado por alguns minutos ao lado de um velho.
        Lembrava agora de um dia, em seus vinte e poucos anos, quando o avô, ao tentar caminhar pelo pomar, na chácara da família, caiu e cortou a testa numa pedra. "- Esse velho é burro", dissera ele, "olha como ficou a minha camisa branca!" Nem notara a dor e a angústia do ser humano que trazia no colo.
        Em sua solidão, ouvia sempre a mesma frase: "- velho? ah!, velho só serve para atrapalhar." Agora isso feria sua alma, doía demais. Como queria conversar com alguém, contar a sua história, ensinar o que aprendera em sua vida! Mas como convencer um jovem de que os velhos precisam de carinho, se ele mesmo, um dia, não tivera tempo?
        E, nesse silêncio solitário, baixou a cabeça ao sentir um aperto no peito, sentiu dificuldade em respirar e, talvez, a última coisa que tenha ouvido foi: "- velho? Ah!, velho só serve para atrapalhar."


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 05 de março de 2001
Abraço!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Devoção


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Que minha poesia grite,
Escandalize, 
Evangelize, 
Profane,
Nos acordes de tua magia,
Nos segredos sutis
Que o teu olhar esconde.

Que minha poesia chore,
Implore,
Adore,
O gosto do teu beijo,
Mistura perfeita
Entre mel e vinho.

Que minha poesia rude
Desnude,
Eternize,
Cada gota de suor
Bebida em teu corpo,
Teu fêmeo perfume,
A flama alva de tua tez,
Teu cio,
Teu ciúme,
Teu rio.
Nem o ápice do alento
Tanto gozo resume.

Que  minha poesia se cale,
Nada fale.
Não há nada a ser dito.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 25 de maio de 2001
Abraços!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Memórias póstumas de um ébrio desconhecido


  Foto: Evandro Carlos Ferreira dos Santos


"Indigno de ser lembrado com saudade."
Assim, quem sabe, pensaria um tolo.
Não deveria nossa humanidade
Divisar além de um preconceito tolo?

Era um ébrio o nosso personagem,
Escravo de suas próprias fraquezas,
Um desamado, inerme de coragem
Para erguer-se ante sua pobreza,

Aliás, não era pobre realmente,
Nem mesmo de espírito era pobre.
Um fraco. Pobre para alguns ignorantes
Que nunca viram o seu sorriso nobre,

Riso de quem sabe julgar a si mesmo,
Lágrima de quem não tem força para lutar.
Talvez por isso vivesse tão a esmo,
Talvez por razão que ninguém sabe explicar.

Ora!, quem não conheceu seus amores?
Todos sabiam, ele amou sozinho.
Ninguém, ninguém conheceu as suas dores.
De fato, quem lhe ofertou um carinho?

Um dia, quis correr atrás dos seus sonhos,
Queria, louco, ser alguém de verdade.
Mudou de cidade, ai!, pobre bisonho,
O destino lhe negou felicidade!

Foi achado morto em um beco qualquer,
Ainda vivo na lembrança de uns poucos.
Esse poema é o seu riso de fé,
Sua dor, saudade de quem foi um louco.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 21 de junho de 1996
Abraço!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Tudo


  Foto: Evandro Carlos Ferreira dos Santos


Rio caudaloso e inesgotável é a poesia
Nas fecundas planícies de minha amante alma poeta.
Nenhum sol pode exaurir essas águas, nenhuma magia
Pode mudar seu curso, fazer olvidar a sua quimera,

Pois, sua nascente, seu enlevo, ah!, é a mulher amada,
Fonte de cada palavra dentro dum verso, dum sentimento.
É ela a chuva, os afluentes, orvalho d'alvorada.
É ela a rima, a musa, a música solta ao vento.

É ela a insônia, a busca pelo verso perfeito,
O grito de saudade, desejo inflamando em meu peito.
É ela o meu riso, minha fé, a vida que pulsa em mim.

É ela o meu ego indígete, a vontade de vencer,
O anjo purificando a fera, o dom de nada temer.
É ela, somente ela, deusa e dona, meu tudo, enfim.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 10 de outubro de 1996
Abraço!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O homem nu


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Meus poemas me despem, silenciosos,
Expõem meus sonhos, meus segredos,
Revelam minha dor, qual tivessem gozo
De se apoderar de meus medos.

Meus poemas gritam que estou nu,
Ousadia de me deixar sem graça,
Perdido, sem norte nem sul,
Numa tarde qualquer de qualquer praça.

Insistem em contar dos meus amores,
Do meu pranto em noites silentes,
Como se fossem sátiros senhores
Da minh'alma enamorada e inocente.

Meus poemas me mostram como sou,
Sem drama nem cama, sem fantasia,
Um homem e seus defeitos, alguém que ousou
O amor que, de tão puro, virou magia.

Meus poemas são minha divina bênção
E minha mais ardorosa maldição.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 02 de janeiro de 2001
Abraço!

domingo, 20 de janeiro de 2013

Meu caminho


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Meu caminho é o amor sincero
Que escolhi para viver,
A verdade que leio todos os dias
Nos olhos da mulher que amo,
A alegria do seu sorriso cúmplice,
Algo tão doce quanto
Um toque angelical.

Meu caminho é seguir o meu sonho
De crescer, ser feliz
E envelhecer ao lado
Dessa flor que, de tão especial,
Fez de mim uma pessoa melhor.

Meu caminho é ser sua bênção,
Sua exclusividade,
Seu abrigo, seu ninho,
O abraço que diz:
"- Conte comigo sempre."

Meu caminho é olhar
Para essa mulher toda manhã
E sentir essa ternura imensa,
E agradecer a Deus
Por ter feito a escolha mais certa
Ou por ter ganho o melhor presente.

Meu caminho é estar do seu lado,
Vivendo cada sorriso,
Cada passo,
Cada lágrima,
Cada conquista,
Cada meio em meio
A tantos meios
De nossa história.

Meu caminho é esse amor imortal,
Que renasce
Em cada verso que escrevo,
Em cada beijo que nos damos.
Meu caminho não é 
Nenhum outro
Senão o mesmo caminho
Da mulher amada.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 19 de janeiro de 2013
Abraço!

Amor constante amor


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Que luz é essa que nasce do amor,
Que ofusca e se faz mistério?
Que sentimento é esse, tão sério,
Que às vezes é felicidade, às vezes dor?

Que força é essa que incita à busca,
Ignorando a incerteza do medo,
Jubilando com a descoberta dum segredo,
Que luz é essa que envolve, ofusca?

Que sonho é esse que desafia a morte
E faz da pessoa amada a razão da vida?
Que lágrima é essa que dói na despedida,
Queima qual fogo e ri da própria sorte?

Que loucura é essa que desperta ciúme
E evoca o medo de perder a mulher amada?
Que criança é essa que crê em conto-de-fada
E se embriaga com o mais inocente perfume?

Que encanto é esse que se faz poesia
E destila, em cada poro, um poema?
Que feitiço é esse, divina fêmea,
Que me faz tão teu, com tanta magia?

Que ideal te fez tão feminina,
Tão mulher em tua dignidade,
E, ao mesmo tempo, sem fugir da verdade,
Te deu este sorriso de menina?

Que eternidade é essa que vibra
Em meu coração, chamando teu nome?
Que jura é essa que nasce da fome
Por teu amor, que sede, que fibra,
É essa que me faz para sempre teu homem?


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 29 de maio de 1998
Abraço!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Arcanos da vida


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


        O doutor Nilton Serqueira Júnior era um médico bem sucedido profissionalmente, tinha uma família maravilhosa, de acordo com ele mesmo, esposa e dois filhos que lhe davam muito orgulho.
        Porém, de repente, começou a se sentir triste e sem objetivo, e, num desses "não-sei-o-quê" da vida, decidiu que queria morrer, comprou um revólver e se dirigiu para uma estrada vicinal próxima à cidade.
        O senhor Eliel e a esposa Lina formavam um casal feliz, pacato, com três filhos, todos já casados. Gabava-se ele de nunca ter entrado em um hospital, exceto para visitar alguém ou acompanhar a esposa.
        Naquele dia eles decidiram visitar o filho que morava em um sítio, próximo à cidade. Num ponto do caminho, Eliel sentiu uma forte e súbita dor de cabeça, conseguiu frear o carro, mas bateu na traseira de outro carro, no acostamento, onde um homem criava coragem para tirar a própria vida.
        Foi um susto tremendo, mas o doutor Nilton saiu do carro para socorrer o casal. A dona Lina estava bem, mas "seu" Eliel, segundo ela, desmaiou dirigindo. Depois de examinar os sinais vitais, o médico colocou os dois em seu próprio carro e se dirigiu ao hospital, onde, diagnosticado um AVC e medicado, "seu" Eliel se recuperou alguns dias depois. Quis conhecer o anjo que lhe salvara a vida.
        "Sabe, senhor Eliel", disse o médico, "na verdade, foi o senhor quem me salvou a vida. Naquele momento, eu ia me suicidar".
        Ficaram amigos, e até hoje não sabem quem salvou a quem.
        Não sei se existe destino, se existe um caminho planejado, mas, por alguma razão, eles tinham que se encontrar naquele momento.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 31 de janeiro de 2010
Abraços!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Destino 


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


No princípio, Deus criou o amor,
E, estranho!, criou também a dor.
Nesse dia o homem aprendeu a chorar,

Pois, Deus fez também a distância,
Os amores impossíveis, sem esperança,
O gesto de quem parte sem promessa de voltar.

E Deus inventou o destino,
Deu ao homem a chance de escolher o caminho.
Assim nasceram encontros e desencontros.

E criou a possibilidade,
O afã da saudade, 
Riso e lágrima no reencontro.

Fez surgir a eternidade
Nos amores inesquecíveis,
E criou a felicidade
Dos sonhos possíveis.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 03 de outubro de 2002
Abraço!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Mágica indefinição


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


És uma surpresa em cada instante,
Uma nuvem mutante no céu,
Como se tivesses um gume cortante
E, ao mesmo tempo, um favo de mel.

És um dia claro de sol,
Mas trazes a noite no olhar,
Algo que mescla a magia do arrebol
Ao mistério duma noite de luar.

Tens o poder sutil de um anjo,
Uma canção suave nos lábios de um menino,
No riso leve, o divino arranjo
De seduzir com teu doce vinho.

De repente, és uma estranha tempestade,
Como se fosses um sagaz demônio
Domando meus medos, minhas vontades,
Me incitando à loucura em sonho.

No entanto, és menina em teus medos,
Uma flor com receio de ser colhida,
De encantar com o perfume do teu segredo,
De se descobrir amando e amada.

És, enfim, um encanto de mulher,
Com seus defeitos e virtudes,
E não me importa o que o futuro me trouxer,
Quero o fogo do teu amor em minha quietude.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 09 de dezembro de 2008
Abraço!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um homem e ele mesmo


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


No dia em que iria morrer
Ele amanheceu com o sorriso
Mais doce que já experimentara
Até agora em sua vida.
A água do seu banho
Parecia uma bênção em sua pele,
Como se tivesse um toque divino.

Doze horas antes de morrer
Ele beijou a mulher amada
Como se fosse aquele o primeiro beijo
E tivesse, em si, promessa de eternidade,
Abraçou o filho qual quisesse
Doar-lhe energia para que o
Iluminasse sempre com seu riso feliz.

Onze horas antes de morrer
Ele cumprimentou os vizinhos
E viu a admiração nos olhos deles,
Sentiu o coração gritar de alegria
Por ter conhecido aquelas pessoas.

Dez horas antes de morrer
Ele desejou bom dia aos
Colegas de trabalho e 
Não se lembrou dos defeitos deles,
Como se só agora visse a
Luz que emanava de seus semelhantes.

Nove horas antes de morrer
Ele cantou baixinho,
Quase dentro de si,
Aquela canção que ele dizia
Não gostar, mas que o fazia
Se sentir vivo e feliz.

Oito horas antes de morrer
Ele sentiu que pensava 
Mais rápido e sentia mais
Prazer no trabalho 
Que já realizava há anos,
Talvez estivesse mais inspirado.

Sete horas antes de morrer
Ele olhou pela janela
E viu o sol mais brilhante,
Melhor, "viu" o sol,
E, pela primeira vez, acenou
E sorriu para um estranho
Que passava pela rua
Como se fossem velhos amigos.

Seis horas antes de morrer
Ele soltou aquele grito vibrante
Que há muito sentia vontade,
E muita gente condenou aquele gesto,
Outros, apenas sorriram,
E alguns, nem ouviram,
Tamanha a apatia em que viviam.

Cinco horas antes de morrer
Ele se olhou num espelho
E viu um homem bonito e feliz,
De fato, seus olhos brilhavam
Como se revivessem os momentos
Em que mais sorriu na vida.

Quatro horas antes de morrer
Ele saiu à rua,
Cantarolando como se fosse criança,
Com leveza de espírito,
E se lembrou de todas as pessoas
Que amava, abraçando a imagem
Da mulher e do filho.

Três horas antes de morrer
Ele entrou na casa dos pais,
Os dois já velhinhos,
Pediu a bênção e beijou-os,
E, como há muito não fazia,
Disse-lhes o quanto os amava.

Duas horas antes de morrer
Ele passou por crianças pedintes
Na rua e não os viu com a 
Simples pena, quase indiferença,
Do dia-a-dia, pensando então:
"Amanhã vou trazer algumas
Roupas para elas."
Este pensamento o fez sentir-se
Mais próximo do divino.

Uma hora antes de morrer
Ele viu a noite, as luzes
Mágicas da cidade, as luzes
Abençoadas das estrelas e da lua.
Nunca o céu fora tão lindo.

Um minuto antes de morrer
Ele refletiu sobre como era
Iluminado, como a sua vida era
Prazerosa, e sentiu a paz
Invadir a sua alma tão intensamente
Que ele parecia flutuar.
Como estava feliz!

Um segundo antes de morrer
Ele viu uma luz que o chamava,
E, de repente, o silêncio...


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 21 de dezembro de 2008
Abraço!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Entre o anjo e a serpente


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Venho de plantar palavras
E colher sentimento,
De traçar a minha estrada
E , poeta, caçar alento.

Venho de inventar rimas,
De provocar riso e pranto,
De abraçar a magia feminina
E me embebedar com tanto encanto.

Venho de vaguear pelo deserto
Do meu mundo estranho,
Onde o errado se mescla ao certo,
Refletindo em meus olhos de sonho.

Venho de um templo perdido no tempo,
Do culto à tua fêmea divindade.
Venho do silêncio, do pensamento,
Do meu jeito sonhador de sentir saudade.

Venho da harmonia duma música lenta,
De sonhar abraçado, deliciosamente,
De sussurrar palavras, como quem inventa
Um jeito de dizer "te amo", suavemente.

Venho de me olhar no espelho,
De buscar minha própria verdade,
De não desvendar sequer meu segredo:
O por que deste fogo, desta intensidade.

Venho de uma memória triste,
Tentando sorrir em vibrante festa,
Qual fosse uma fênix que não desiste,
Sou anjo, serpente, apenas poeta.

Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 10 de julho de 2000
Abraço!

sábado, 12 de janeiro de 2013

À Fulana


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Ai! O amor não é tão simples quanto se cuida,
E o homem não é tão forte quando se queda,
Carente, nos lábios doces de uma mulher.

Eis que ele não é mais dono de suas vontades,
É fera domada, anjo indefeso, fraude
De poeta que se perde em um verso qualquer.

Enclausurado nesse amor, me pego risonho,
Porque, menino, amei essa mulher num sonho,
E, másculo, transformei-o em realidade.

"Ah!, Fulana, sempre te desejo ao meu lado,
Pequena e veneranda deusa do pecado,
Sim, és tu o meu conceito de felicidade!

Amo tocar tua pele macia, morena,
Provar do mel, gentil, da tua boca pequena,
E descobrir no teu corpo o meu paraíso!

Não é possível rimar as tuas atitudes,
Teus defeitos (porque tens), e as tuas virtudes.
Te amo, não porque quero, mas porque preciso!

Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 10 de junho de 1995
Abraço!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Os mesmos olhos


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Com ingenuidade no olhar
Recordei amores que ousei sonhar,
Penetrei em minh'alma, fui buscar a raiz.
Do paraíso onde eu quis morar
Hoje me restava somente a cicatriz.

Me senti simplesmente criança,
Cheio de esperança, 
Transbordando, em meu riso, carinho inocente.
Tão longe de minha aparente bonança
Meu coração agonizava, dolente.

Compreendi que estava me perdendo, 
Apenas por ilusões, morrendo.
E, olhando minhas lágrimas caídas,
Senti vontade de sair correndo,
Desesperado, em busca da saída.

O frio da vergonha me açoitava a face,
E eu procurei um disfarce
Que ocultasse do mundo a minha dor.
Por mais que procurasse
Não encontrava em tudo o que vivi um real amor.

Mísero! Que sonho cruel,
Com doce sabor de fel,
Eu conquistara para mim!
Não existira o eterno mel,
Nem aquele amor sem fim.

Olhei para o sol ardente
E para as flores ainda dormentes,
E, naquela manhã, abracei-me, expectador
De um dia que brilha somente
Para os loucos que acreditam no amor.

Foi quando ouvi um som ao meu lado,
O soluço de um coração abandonado.
Uma lágrima triste se deixou cair
Naquele rosto fragilizado
Pelo amor que acreditava possuir.

Perguntei por que chorava,
E ela me disse que era porque amava.
Perguntou se eu acreditava nessa fantasia,
E eu lhe disse que também sonhava
Com muitas formas de poesia.

Um sorriso brilhou naquele olhar
Como uma luz que não pode se apagar.
Éramos tímidos naquele mágico momento,
E nem vimos o tempo passar
E levar consigo o nosso tormento.

Éramos tão iguais!
Estávamos a procura de paz.
Buscávamos o sentimento que nunca se finda.
Coloríamos o arco-íris com um sonho a mais.
Poetizávamos, da vida, as coisas lindas.

Nos abraçamos, em cumplicidade,
Como crianças envoltas em simplicidade.
Nenhuma promessa fizemos nesse instante,
Pois, a verdadeira felicidade
É feita da mutualidade constante.

Era um dia triste quando nos encontramos,
Fez-se um dia lindo quando nos tocamos.
Criamos, em silêncio, as chances de um grande amor,
E esse sonho que juntos semeamos
Arderá, em nós, qual chama que vive em razão do amor.

Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 22 de julho de 1992
Abraço!



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Para falar de saudade


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves



Para falar de saudade, sincera saudade,
É preciso abdicar de toda palavra,
E olvidar a toda falsa hombridade,
Para deixar soar o grito duma lágrima.

Para falar de saudade é preciso amar
Muito além de uma simples definição,
Qual fosse o ser amado fogo a queimar,
Inexorável, no íntimo do coração.

Para falar de saudade é preciso sonhar
Com o reencontro, sentir cada carinho
Como se fosse real, qual se pudesse tocar,
Sentir calor de quem vai longe no caminho.

Para falar de saudade é preciso olhar
Nos olhos e deixar, mudo, o sonho falar.

Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 27 de abril de 1996
Abraço!
Gabriel


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Num pequeno mundo (fim de mundo) dum vilarejo
Ouviam-se risos de felicidade, ensejo
Do nascer de um anjo. Assim todos pensavam.

Eis que nasce, enfim, o fruto tão abençoado,
Inocente e indefeso, sem saber seu fado,
Em nada semelhante ao que todos esperavam.

Sua pele não era alva, nem azul o seu olhar.
Tinha no peito a mácula de uma espada,
E isso despertou preconceito naquela gente.

"Um demônio", julgavam, "paz não teremos jamais".
Na infância, Gabriel só teve amor dos pais,
Ninguém tinha contato com alguém tão diferente.

Vivia sozinho, culpado por todos os erros,
Mesmo os que não eram seus, o anjo imperfeito.
A rudeza aumentava com o passar dos anos.

Então, um dia, conheceu Serena,
Deusa frágil, na magia duma noite morena,
Prima vez que alguém olhou além do preconceito

E viu sua alma radiante de bondade,
Ah, primeira vez que alguém o amou de verdade,
Dividiu com ele a cumplicidade dum sorriso.

Mas, ai!, como são injustos os golpes do destino,
Como podem os ignorantes serem tão ferinos!
Ai!, lágrimas são possíveis mesmo no paraíso.

Serena desapareceu sem deixar notícia.
De repente, todos o olhavam com malícia, 
Todos o acusavam da sua morte, sua dor

Era ignorada, e Gabriel foi condenado
Por puro preconceito. "Ele não era uma anjo,
Por isso a a matou", disseram. Não viram seu amor,

Nem ouviram seu grito dolente, nem os seus sonhos
Caírem precipício abaixo, tão tristonhos
E fúnebres qual a maldição dum fado bisonho.

Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 24 de setembro de 1996
Abraço!