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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Retrato de um pobre de espírito

Retrato de um pobre de espírito


  Foto; Daniel Carvalho Gonçalves


Sou pobre quando ignoro
o riso do meu semelhante,
quando, superior, 
eu rio dos ignorantes.
Sou pobre quando acredito
que sou capaz de comprar um sorriso
ou cobrar pelo meu.
Sou pobre quando sou preconceituoso,
quando vejo a cor da pele,
cultura ou posição social.
Sou pobre quando sou meio-amigo,
quando não divido os bons e os maus momentos,
quando me esqueço que os outros também choram.
Sou pobre quando imponho meus ideais,
quando roubo dos outros a liberdade de escolha.
Sou pobre quando sou egocêntrico,
quando amo buscando meus interesses,
quando me dou de alma e corpo
esperando que me paguem em dobro.
Sou pobre quando eu minto,
quando tiro de alguém o direito de saber a verdade,
quando não sou o que de bom esperam de mim.
Sou pobre quando não sorrio
a quem precisa de um sorriso.
Sou pobre quando não vejo meus defeitos,
quando não condeno meus erros.
Sou pobre quando não sonho,
quando não creio na possibilidade,
quando não me importo com os sonhos de alguém.
Sou pobre quando digo mil palavras
e nada sinto.
Sou pobre quando não sei me silenciar.
Sou pobre quando sou forte
e zombo dos fracos,
quando poderia ajudá-los.
Sou pobre quando creio que não preciso dos outros.
Sou pobre quando não sei amar.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 03 de setembro de 1992
Abraço!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Destino de Ícaro

Destino de Ícaro


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Eis uma borboleta adejando, bisonha, numa manhã de primavera!
Tão bela e airosa, pueril e contente, perdida em sua quimeras.

Como era gostoso bailar por entre as flores perfumadas! Oh, encanto!
Era tão bom afagar aquelas pétalas, provar daquele pólen tão santo.

Naquela manhã ela sentia-se princesa, quase deusa, no paraíso.
Suspirou, feliz, quase em êxtase, e deixou-se desabrochar num sorriso.

Porém, por desventura do destino, aspirava, em sua fragilidade,
Alcançar, apaixonada, o garboso febo que fulgia felicidade.

Nem mesmo um deus poderia mudar seus sonhos. O amor muitas vezes cega,
E ela partiu ao encontro do seu amado - as vezes o coração erra.

Voou durante horas intermináveis - ele ficava cada vez mais longe.
Veio a sede, a fome. Oh, onde estavam as flores? Estavam distante.

Quis voltar, mas já não tinha forças, restavam apenas cansaço e lembranças.
Como era gostoso bailar por entre as flores perfumadas! Ai, criança!

Caiu, exânime, solitária em seus devaneios. Ai, melancolia!
Ninguém chorou por ela naquele dia, exceto quem fez esta poesia.

Mas, quem, um dia, irá dizer que ela não foi feliz em seu pequeno sonho?
Quem dirá que as lágrimas não foram compensadas por seu rosto risonho?



Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 30 de novembro de 1995
Abraço!

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

À malícia de uma flor

À malícia de uma flor


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


As vezes, como um sonho, és surpreendente.
Bem sei, tens a malícia de uma serpente,
És sutil e fugaz, prenúncio de pecado.

E se acaso és espinho e não a rosa,
Me encantas muito mais, tão maravilhosa.
Teu sorriso jocoso, teu brilho encantado

Faz do homem um menino tolo, indefeso,
Faz parecer que conhece todos os meus segredos,
E eu me vejo despido de corpo e alma.

De repente, como mágica, és inocente,
Transforma-se num anjo frágil e dependente,
A irradiar, veneranda, símplice calma.

Nesse momento és a rosa e não o espinho,
É s flor-menina a despertar, em mim, carinho.
Procuras o meu abraço qual fosse abrigo,

E o menino em mim se faz homem, te ama
Como és, mulher-menina, anjo-serpente, ah! ,
Te ama porque és única, és meu abrigo.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 05 de dezembro de 1995
Abraço!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Testamento de poeta

Testamento de poeta


  Foto; Daniel Carvalho Gonçalves


Deixo para as flores, doces flores,
Os sonhos que não pude realizar.
Deixo também minhas secretas dores
Para um poema que alguém inventar.

Deixo para as estrelas, tão inocentes,
Todas as palavras que eu não disse.
Algumas, impudicas, displicentes.
Outras, santas e de alvas matizes.

Deixo para o amanhecer o perfume
Dos carinhos que escondi em minha alma.
Para as folhas de outono, ciúme
Dos sonhos que nascem de sua calma.

Deixo para as coisas incertas da vida
O meu orgulho, o meu egoísmo.
Deixo para as pessoas por mim feridas
Minha humildade e meu altruísmo.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 25 de abril de 1996
Abraço!


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Obscuro

Obscuro


  Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Quem há de compreender o poeta?
Quem há de penetrar em sua solidão?
Quem há de curar suas chagas abertas,
Quando é indecifrável o seu coração?

Ser poeta é desdenhar da própria dor,
Chorar sozinho cada sonho perdido,
É amar sem jamais definir o amor,
Ousar quando tudo parece sem sentido.

Quem há de perdoar seus tolos pecados,
Quando é mais fácil chamá-lo de louco?
Quem há de condenar o seu passado
Se, do santo ao profano, foi de tudo um pouco?

Ser poeta é andar por onde ninguém andou,
É amar suas musas como nenhum homem amou,
É desejar o bem em seu mundo imperfeito.

Ser poeta, às vezes, é resumir-se silente,
Em meio a uma festa, fazer-se ausente,
Sonhando o amor em seu domínio perfeito.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 22 de janeiro de 2001
Abraço!