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terça-feira, 14 de março de 2017

Descoberta

Descoberta


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Te conhecer foi perder a posse de minha alma,
Descobrir um novo caminho por onde andar.
Foi penetrar num sonho, descobrir a rima
Até então inerte em meu pobre divagar.

Te conhecer foi renascer, ora!, e ascender
Aos céus, redescobrir, dependente, o sentido;
Foi responder o onde, o como e o por que;
Foi, carente, menino, encontrar um abrigo.

Te conhecer foi esquecer meu tolo segredo
E perder, em nome desse amor, o meu medo
De me entregar, foi achar a felicidade

Que eu, crítico, um dia, julguei impossível;
Foi ver a beleza até então invisível,
E assumir que és toda a minha verdade.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 24 de junho de 1997
Abraço!

domingo, 5 de março de 2017

O condenado

O condenado


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Caminhava o condenado, cheio de alento,
Ora, inocente, absorto em seus pensamentos.

Ia garboso, qual se nada pudesse lhe ferir,
Como se os espinhos fossem flores a lhe sorrir.

Estava feliz com tudo o que a vida lhe dera:
Amigos, filho, sua esposa, suas quimeras.

Ia, poeta, compondo seus versos ao acaso
Das rimas que nasciam da magia do ocaso.

Vagava, orgulhoso de suas mãos calejadas
Pelo brutal trabalho. Sofrera nessa estrada.

Pensava no riso de sua amada, carinho
Intenso, sua fortaleza, seu sonho, seu ninho.

Ah! Ia cantando em sua hora derradeira,
Tão contente, ignorando sua sorte faceira.

Ria sozinho, na expectativa de seus sonhos,
A alma pura, refletida em seus olhos bisonhos.

Pensava no abraço do filho, pingo de gente,
Em seu rostinho alegre, seu maior presente.

Caminhava o condenado sem saber seu fado,
Sem saber que a morte caminhava ao seu lado.

Eis que um tiro certeiro, vindo de não sei onde,
Lhe abre uma chaga no peito e lhe esconde

O direito de realizar seus sonhos mais simples,
Fazendo daquele sorriso um gesto fúnebre.

E, de todo aquele fulgor de felicidade,
Da sua nobreza, hoje só resta saudade,

E a certeza de que somos apenas meninos,
Indefesos contra os desígnios do destino.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 21 de maio de 1997
Abraço!


sábado, 4 de março de 2017

Inexplicável devoção

Inexplicável devoção


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Divago, desvairado, por entre pautas,
Na tola pretensão de te poetizar.
Mísero! Como poetizar tal deusa,
Flor campestre, orvalho do meu alvorar,
Fera agreste, capaz de me encantar?

Surpreende-me essa inexplicação,
Este não saber o que te dizer.
Ah! Me fascina teu jeito de menina,
Inocente, anjo que não sei esquecer.

Porém, às vezes, és tão maliciosa,
Sutil, mulher decidida, linda dona
De minhas secretas e loucas vontades.

Não sei ao certo se falo dos seus olhos
Ou se rimo as curvas do teu corpo - 
Sei que sou capaz de tudo por ti.

Bem, o que sei é que te amo tanto,
E queria que, de algum jeito, não importa,
Tu soubesses disso.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 24 de novembro de 1994
Abraço!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Breve nostalgia

Breve nostalgia


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Queria uma palavra qualquer
Do travesseiro que eu abraçava,
E ele sussurrou-me:
Saudade.

E eu chorei várias saudades:
Dos que se foram para algum lugar
De onde já não podem voltar.

Do meu tempo de criança,
De sonhos inocentes
Sepultados sem perceber.

De amigos que ainda são amigos,
Mas que vivem seus caminhos
Que raramente cruzam-se com os meus.

De amores que ainda habitam
Eternos poemas que escrevi.

De parte de mim que precisou morrer
Para que algum sonho nascesse.
De todas as palavras que eu não disse
Quando deveria ter dito.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 20 de fevereiro de 2017
Abraço!

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Do tempo e da vida

Do tempo e da vida


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Vejo-te ainda
Com a mesma leveza
De outrora,
Com o mesmo encanto
Que eu via o teu riso.

Os anos mudaram muita coisa, 
Mas não mudaram
O jeito embevecido
Com que vejo o teu sorriso,
Algo iluminado,
Nascido da tua alma.

Essa magia me faz melhor,
Purifica meus pensamentos,
Fecunda meus sonhos,
Fortalece minha convicção
Do caminho,
Me ensina,
Um pouco a cada dia,
O significado do amor.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 19 de fevereiro de 2017
Abraço!

Loucura

Loucura


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Quem há de entender o poeta
Quando seu poema é um grito
Rasgando a solidão do seu mundo?

Quem poderá desvendar suas intenções
Quando o seu coração é tempestade
De dores, cores e sentimento?

Cada verso é vendaval incontido,
De incógnitas inspirações,
De caminhos e descaminhos,
De amores indecifráveis
Que nascem e morrem dentro de si,
Às vezes no mais doce dos silêncios.

Quem há de ousar por este orbe estranho,
Domar essa fúria indomável,
Explicar essa estentórea tormenta,
Quando tudo parece paz,
E seus gestos transpiram
Simplicidade?

Haverá quem possa?


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 19 de fevereiro de 2017
Abraço!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Quando o amor não tem explicação

Quando o amor não tem explicação


     Foto: Daniel Carvalho Gonçalves


Quando eu escrever um poema
E ele te parecer sem nexo,
Pobre talvez,
É porque já não existem palavras
Que traduzam meu infinito amor por ti.

Quando eu cantar uma canção,
Se em minha voz nascer uma lágrima,
E um grito silente e luzidio em meus olhos,
Quero que saiba que isso é o resumo
Do que eu jamais conseguirei te dizer.

Quando eu me embaraçar
Nas poucas rimas tão mal escritas,
E, então, te abraçar
E te beijar, enlouquecido - 
O que quero dizer
É que preciso demais de ti.

Quando eu te parecer distante
(No poeta isso é uma constante),
Perdido em meu próprio mundo,
É porque estou rebuscando a alma
Em busca de alguma coisa
Que te faça entender o quanto te amo.


Daniel Carvalho Gonçalves
Escrito em 15 de dezembro de 1994
Abraço!